Seu Guaragna: o pombo-correio do exílio de Leonel Brizola

 

Sem o telégrafo não existiria a Campanha da Legalidade em 1961. Isso é o que está dito no livro História de um Pombo-Correio, de autoria de João Carlos Guaragna, escrito em 1992, talvez o melhor livro sobre Leonel Brizola, casos contados com a maior picardia, mas densos de reflexão política e sabedoria humana.

– Seu Guaragna, seu Guaragna, carinhosamente chamado por Brizola, era um telegrafista, homem da radiodifusão, funcionário do correio de Porto Alegre.

Entrou no PTB em 1947, participou da campanha de Getúlio Vargas em 1950 e fez centenas de viagens clandestinas (com risco de ser preso e torturado) entre Porto Alegre e Montevidéu depois de 64, levando informações daqui para o exilado Leonel Brizola no Uruguai.

Seu Guaragna escreveu em estilo telegráfico, como queria o modernista Oswald de Andrade. Guaragna era um telegrafista escritor e um escritor telegrafista.

Síntese, linguagem concisa, condensada de informações e reflexões históricas.

Livro escrito com dicção oral. Guaragna tinha ouvido excelente. Não é a toa que menino em Porto Alegre, trabalhava vendendo balas e doces no Teatro São Pedro e assoviava Rigoleto e Tosca, de Verdi e Puccini.

Gaúcho, nasceu em 1912, dez anos mais novo que Leonel Brizola. Em Montevidéu destacou que no jornal Época Brizola nomeou os ministros entreguistas de Jango: Santiago Dantas, Roberto Campos e o milico Amauri Kruel.

Guaragna considerou Carlos Lacerda “o maior quadro do imperialismo na América Latina”.

O golpe de 64 foi financiado pelos E.U.A., Leonel Brizola ficou inimigo do centro imperialista porque encampou a ITT (International Telephone & Telegraph) em 1962, e então passou a ser o inimigo número um dos E.U.A.

O Departamento de Estado  dos E.U.A. declarou: “Brizola é o homem que precisamos esmagar”. E de fato foi esmagado. Logo depois chegou ao Brasil a santíssima trindade do imperialismo: Padre Payton, organizador das mulheres marchadeiras em Minas e São Paulo, o embaixador Lincoln Gordon, o adido militar Wernon Walters, velho amigo do Marechal Castelo Branco.

Guaragna assinalou que tentaram derrubar Jânio. Odílio Diniz era o seu ministro da guerra. Fizeram-no renunciar. Talvez a causa da renúncia tivesse sido o Tratado de Uruguaiana entre Brasil e Argentina, articulado por Leonel Brizola, que era bolivariano e por isso pode ser considerado o precursor de Hugo Chávez.

O Tratado de Uruguaiana retomava o pacto Perón e Getúlio que articulava uma aliança Brasil e Argentina, ou seja, o precursor do atual Mercosul.

Em 1961 a Campanha da Legalidade colocou Jango no Poder, ainda que com o dispositivo espúrio do parlamentarismo, cujo mediador foi Tancredo Neves.

No dizer de Guaragna: “Tancredo sempre surgia onde havia uma crise e sempre havia uma crise onde se encontrava”.

Guaragna estava imbuído de razões históricas para não gostar do doutor Tancredo. Em Porto Alegre, durante a Campanha da Legalidade, Brizola estava a fim de prender Tancredo Neves numa suíte de luxo em um hotel da capital, mas Tancredo zarpou direto de Montevidéu para Brasília e perdeu a oportunidade de curtir uma suíte de luxo de graça, assinalou com ironia Guaragna.

Jango subiu cambaleando no poder, Tancredo foi o primeiro ministro do regime parlamentarista. Em 1961 Carlos Lacerda iniciou o movimento contra a posse de Jango.

Marechal Lott lançou o manifesto a favor da posse de Jango e foi preso.

Bombeiros e sargentos impediram a decolagem dos aviões que iriam bombardear o palácio Piratini.

Orlando Geisel ameaçou bombardear o palácio se o general Machado Lopes não interrompesse a ação subversiva.

Machado Lopes resolvou respeitar a constituição.

Legalidade ou morte.

400 homens dispostos a pegar em armas.

Jango em Montevidéu encontrou-se com Tancredo Neves, que condicionou sua posse à emenda parlamentarista. Jango aceitou, Brizola denunciou que a Campanha da Legalidade fora traída. Brizola e Jango ficaram 10 anos sem tomar chimarrão juntos.

Três anos depois vem o golpe de 64. Exílio dentro do exílio. Brizola permaneceu em uma praia deserta durante sete anos sob vigilância militar.

No decurso da ditadura Ulisses Guimarães, o democrata de meia tigela, elaborou e assinou o Ato Institucional número 1.

O advogado Francisco Rezek era juiz em Porto Alegre e atazanou os bens de Leonel Brizola. Mais tarde, chefiando o Tribunal Eleitoral, fez com que Brizola chegasse depois de Lula nas eleições de 1989. Logo depois foi nomeado chanceler por Collor.

No exílio conversando com Seu Guaragna, Brizola dizia: é questão de tática, vamos ter de ficar de olho no MDB deste tal Pedro Simão.

Seu Guaragna, vamos ter de apoiar Paulo Brossard, o Rui Barbosa gaúcho em compota.

Guaragna lembrou que o democrata Ulisses Guimarães tinha ódio de Brizola, por isso batalhou para aumentar o período de cassação de seus direitos políticos de 10 para 15 anos.

Em 1964, o oportunista Pedro Simão inaugurou o brizolismo sem Brizola.

A história não se repete, mas o que diria o velho Guaragna agora sobre o trabalhismo depois da morte de Leonel Brizola?

De novo brizolismo sem Brizola?

26.12.2011

COMPARTILHE:

Praça Floriano Peixoto, s/n - Gab. 605
Cinelândia - Rio de Janeiro - Brasil
CEP: 20031-050